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04/07 - Conheça o remédio que melhora as funções cognitivas do cérebro


Por  Sincofarma MG  Postado 04/7/2016

Há várias coisas que você pode fazer para limpar sua mente e fazer com que seu cérebro se concentre em todas as coisas que você precisa fazer. Você pode correr ou começar a ir para a academia – já foi mostrado que exercícios impulsionam eficazmente a capacidade cognitiva. Você pode também ter uma boa noite de sono, algo que refresca os níveis de energia, é essencial para a memória e torna significativamente mais fácil se concentrar. Ou você poderia tomar uma xícara de café e aproveitar os benefícios da nossa melhor amiga, a cafeína.

Mas, por vezes, nada disso parece ser o suficiente. Isso pode fazer com que as pessoas busquem uma solução adicional, uma pílula que possa impulsionar seus cérebros por tempo suficiente para superar qualquer obstáculo.

Estudantes e trabalhadores sobrecarregados com frequência experimentam substâncias como Adderall ou Ritalin em uma tentativa de fazer exatamente isso. Porém, não há provas de que a maioria destes “impulsionadores cognitivos” realmente façam o cérebro trabalhar melhor.

Mas um artigo recente publicado na revista European Neuropsychopharmacology afirma que há uma substância que realmente faz melhorar a atenção, a memória, a aprendizagem e outras habilidades cognitivas – o Modafinil.

Busca por melhorias

A melhoria cognitiva do cérebro através de vias farmacêuticas não é uma ideia nova. As pessoas têm usado drogas para tentar aumentar a sua capacidade intelectual por mais de 100 anos. No início de sua carreira no final do século 19, Sigmund Freud experimentou prolificamente a cocaína, que ele descreveu na época como o seu “entusiasmo mais lindo”.

O matemático Paul Erdős tinha um relacionamento tão sério com a anfetamina que, quando ele parou de tomá-la por um mês para ganhar uma aposta de 500 dólares, ele imediatamente voltou às drogas depois. Ele famosamente disse ao amigo com quem apostou: “Você fez a matemática retroceder um mês”.

Essas substâncias, no entanto, vêm com efeitos colaterais negativos significativos. É isso que torna o Modafinil tão interessante. Em uma revisão da literatura sobre a droga, os pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Ruairidh Battleday e Anna-Katherine Brem, descobriram que ele não parece ter quaisquer efeitos secundários particularmente graves e não parece suscetível a causar dependência – embora ainda haja perguntas sem respostas.

Como o Modafinil afeta o cérebro

Battleday e Brem analisaram 24 estudos que avaliaram como o Modafinil afetava mentes saudáveis de pessoas sem privação de sono (eles consideravam inicialmente 267 estudos, mas rejeitaram aqueles que não foram controlados com placebo, usavam indivíduos não saudáveis ou faziam testes em animais, e não pessoas). O fato de que os indivíduos eram saudáveis é uma distinção importante – muitos estudos que analisam drogas que afetam a capacidade de raciocínio são projetadas para avaliar pessoas com deficiências cognitivas.

A maioria dos estudos pode ser dividida em testes cognitivos “básicos” ou “complexos”, afirmam os pesquisadores. Testes básicos avaliam apenas um subcomponente da cognição e tendem a ser tarefas muito simples. Em relação a estes testes, os efeitos de Modafinil foram variados. Foi em testes complexos que os autores encontraram melhora consistente, especialmente em termos de atenção, capacidade de se concentrar em uma tarefa, processo de informações relevantes, aprendizagem, memória e função executiva, que inclui a capacidade do cérebro de absorver informações e usá-las para chegar a planos ou estratégias.

Segundo os autores, estas tarefas complexas são maneiras muito melhores de responder se esta substância realmente incrementa a capacidade cognitiva do cérebro do que aquelas mais básicas.

“Raramente na vida vamos passar um dia inteiro usando um único subdomínio cognitivo – como a atenção, por exemplo. Pelo contrário, nós constantemente prevemos, planejamos e resolvemos problemas – tudo isso envolve o uso de subdomínios de cognição e a integração de suas produções – das mais variadas tarefas e dificuldades. É neste sentido que tarefas complexas podem nos aproximar das nossas tarefas de todos os dias e funcionam melhor do que tarefas simples”.

Nós ainda não sabemos exatamente como o Modafinil funciona. Ele foi originalmente projetado como um tratamento para a narcolepsia, para manter as pessoas acordadas, mas ninguém está inteiramente certo como isso afeta a cognição.

“A melhor ideia que temos é que, alterando diretamente a concentração de um grupo de substâncias químicas no cérebro – chamadas de ‘catecolaminas’ – o Modafinil regula positivamente a atividade em redes de atenção e controle executivo do cérebro”, os autores disseram ao site Tech Insider. “Essas mudanças hipoteticamente permitem que os indivíduos tenham um melhor desempenho em tarefas cognitivas. Particularmente aquelas que requerem foco e resolução de problemas”.

Eu posso tomá-lo?

Mas então será que dá para pedir para um médico receitar este néctar dos deuses da atenção e da produtividade? A resposta, por enquanto, é não, a menos que você tenha narcolepsia. Mas isso pode mudar.

Em relação à segurança, Brem e Battleday disseram que os estudos não observaram efeitos secundários graves. A maioria dos estudos reportou um ligeiro impulso no humor, sem efeitos adversos. Nos estudos que encontraram efeitos adversos, um pequeno número de participantes relatou insônia, dor de cabeça, dor de estômago ou náuseas e boca seca.

Isso pode não parecer muito bom, mas no contexto, esses efeitos não são algo tão ruim. “Seria como tomar um copo extra de café que você não precisa”, diz o psiquiatra clínico James McGough, da Universidade da Califórnia.

Apenas um estudo avaliou o potencial para o abuso do mediamento, e relatou que este é baixo.

Mas nenhum desses estudos testou o uso a longo prazo, de modo que não sabemos se é seguro para alguém tomar Modafinil durante um período prolongado de tempo. Como os autores apontam, a maioria desses estudos só foi testado em dose única, o que não chega nem perto de avaliar os riscos de uso regular.

Financiamento escasso

Curiosamente, Battleday e Brem salientam que não há muita pesquisa sobre a melhoria cognitiva para pessoas saudáveis e que há uma falta de financiamento e talvez até um pouco de tabu em estudar o tema.

“Parece que o financiamento para estudos baseados em drogas para indivíduos saudáveis não consegue atrair bolsas e prêmios médicos”, dizem eles.

É por isso que eles dizem que foi difícil encontrar bons testes complexos de melhoria cognitiva, e eles esperam que, talvez, o seu trabalho incentive os pesquisadores a investigar mais profundamente o tema.

Se isso acontecer, pode haver surpresas lá fora – talvez alguns dos outros medicamentos utilizados para melhoria cognitiva, coisas como Adderall, funcionem melhor para pessoas saudáveis do que nós pensamos, apesar de seus potenciais riscos de dependência.

Mas mesmo se o Modafinil for comprovadamente seguro a longo prazo e sua capacidade de impulsionar as funções cognitivas for confirmada por outros estudos, ainda existem razões pelas quais – por enquanto – os médicos não vão começar a prescrevê-lo para as pessoas saudáveis.

Na recente reunião anual da American Medical Association, o grupo decidiu adotar uma política de “desencorajar o uso não médico de medicamentos para melhoria cognitiva em indivíduos saudáveis”.

Então, não espere uma receita de Modafinil em breve. Não que isso impeça muitos usuários. Existem comunidades de internet dedicadas a discutir o uso desses tipos de drogas, e há uma abundância de relatórios de usuários sobre o Modafinil especificamente.

A maioria desses usuários encomendam o remédio pela internet, a partir de farmácias obscuras, uma prática fortemente desencorajada pela aplicação da lei, uma vez que é ilegal e potencialmente perigosa.

Vamos poder tomar a pílula da inteligência algum dia?

Digamos que vários estudos mostrem que é seguro tomar Modafinil ocasionalmente durante longos períodos de tempo – pelo resto de sua vida, até mesmo. Digamos também que não existem efeitos colaterais negativos adicionais causados por essa utilização.

Se for esse o caso, devemos ser capazes de usar a droga?

“Essa é uma pergunta muito interessante, e uma sociedade deve dar a devida atenção a ela no futuro próximo; não apenas em relação ao Modafinil, mas para todos os agentes potenciais neuroestimulantes”, dizem Battleday e Brem. Mas eles apontam que mesmo se algo revela-se seguro para um indivíduo, isso não responde a todas as perguntas sobre como seu uso afeta o resto da sociedade.

Algumas pessoas temem que, se for permitido qualquer uso de drogas para melhorar a capacidade cognitiva do cérebro para os indivíduos, isso acabará levando as pessoas a serem obrigadas a usar essas substâncias, mesmo que não queiram. Isso poderia ser devido à pressão interna que viria de uma necessidade de manter o mesmo ritmo que os outros – se os meus colegas de trabalho estão tomando este medicamento de aumento da capacidade do cérebro e eu não, eu vou ser julgado por não estar me esforçando o suficiente?

Há ainda a preocupação de que as pessoas em certas profissões podem ser obrigadas a usar substâncias que melhorem as capacidades cerebrais. Poderíamos chegar ao ponto que é considerado inseguro para os pilotos voarem ou cirurgiões operarem sem o uso de drogas que aumentam o foco e a atenção?

Questões éticas

No site The Conversation, as pesquisadoras Emma Jane e Nicole Vincent descrevem como o uso de beta-bloqueadores se tornou generalizado entre os músicos clássicos. Enquanto algumas pessoas usaram pela primeira vez estas drogas para superar a ansiedade de desempenho, elas eram tão eficazes e tiveram efeitos colaterais suficientemente mínimos que outros músicos sentiram que estavam perdendo por não usar beta-bloqueadores também.

“Assim como o uso de beta-bloqueadores tem se tornado comum no cenário da música clássica, este realce cognitivo também ameaça tornar-se um novo ‘normal'”, elas escrevem.

E as questões éticas não param por aí. Há questões sobre justiça – se as pessoas ricas podem facilmente pagar por melhorias cognitivas, mas ninguém mais pode, isso facilmente criaria uma sociedade ainda mais desigual. Substâncias cognitivas benéficas já estão por aí e são mais propensas a se tornar disponíveis no futuro próximo. Estas perguntas sobre como usá-las ou como regulá-las são importantes. “Este não é um cenário futuro, mas sim um cenário atual”, dizem Brem e Battleday. 

Fonte: Hype science