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25/07 - Pesquisador fala sobre novos medicamentos para doenças com grande incidência


Por  Sincofarma MG  Postado 25/7/2016

Considerada um problema de saúde pública em diversos países do mundo, a malária é uma doença infecciosa que tem cura, mas pode evoluir para formas graves se não for diagnosticada e tratada corretamente levando a pessoa ao coma ou a morte. Outro obstáculo é que não existe vacina eficaz, apesar de esforços no sentido de desenvolver uma. Hoje, o tratamento é feito durante sete ou 14 dias, mas se os remédios deixarem de ser tomados nesse período, ela volta.

Na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) há uma série de pesquisas científicas sendo tocadas com vista ao desenvolvimento de novos medicamentos, uma vez que a malária é uma doença classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como negligenciada. Isso porque não há interesse econômico dos laboratórios em desenvolver remédio e vacina que não dão retorno financeiro no futuro.

O pesquisador da FMT-HVD Marcus Lacerda explica que no Brasil, especificamente, a malária que predomina é a causada pelo Plasmodium Vivax. “Hoje, a gente tem mais de 90% de toda malária causada por esse agente, que é diferente do africano: o Plasmodium Falciparum, aquela malária que mata e é muito mais grave. A nossa é uma malária que não mata, apesar de ter muitas consequências para a população”, destaca, ao frisar que o tratamento é feito com cloroquina (3 dias) e primaquina (7 ou 14 dias).

Mas uma pesquisa financiada pelo laboratório Glaxo Smith Kline e desenvolvida em diversos centros do mundo inteiro, inclusive na FMT-HVD, pretende revolucionar o tratamento da doença. Trata-se da Tafenoquina, onde bastará um comprimido para curar a malária. “Nós estamos na fase III, última etapa da pesquisa, onde é testada em pessoas para saber a eficácia do medicamento. Acreditamos que dentro de uns três anos o Brasil esteja usando. Essa é a grande vedete para quem trabalha com malária”, diz.

Lacerda, que também é pesquisador da Fiocruz Amazônia, relata que a maior dificuldade – do mundo inteiro – para trabalhar com as doenças infecciosas é a falta de financiamento para as pesquisas porque são “doenças de pobre”, exceto dengue e zika que todo mundo da área urbana pega, mas hepatite viral, aids, tuberculose e malária são mazelas da pobreza. Então, não há muito interesse comercial em desenvolver remédio e vacina contra elas.

Ao contrário das chamadas “doenças de rico” que dão retorno financeiro. “Artrite reumatoide, por exemplo, é uma doença que qualquer um pode ter e a pessoa vai passar a vida inteira pagando remédio, ou seja, dando retorno financeiro para os laboratórios. A malária quem vai ter é o ribeirinho, o sujeito da periferia de Manaus, que não vai pagar pelo tratamento que é simples. O governo compra o remédio para ele. Isso não dá retorno”, explica.

Frase

“Depois que acabar essa fase III da pesquisa com a Tafenoquina, esperamos que o Ministério da Saúde comece a comprar a medicação para usar em todo mundo. A gente terminou esta etapa aqui, mas outras partes do mundo ainda não. Por isso, a espera porque deve ser publicado tudo junto”. Marcus Lacerda - pesquisador da FMT-HVD

Remédio

O pesquisador da FMT-HVD, Marcus Lacerda, acredita que, especialmente, no Brasil, vamos conseguir eliminar a malária com droga (remédio), não com vacina porque não há e dificilmente vai haver, principalmente para o Plasmodium Vivax, pois não mata muita gente e a vista disso não é muito pesquisado para se encontrar uma vacina. “O remédio é a única ferramenta que temos, então temos que aperfeiçoá-lo”, salienta.

Outras doenças infecciosas com pesquisas importantes em desenvolvimento na FMT-HVD

A Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) é uma das poucas instituições do mundo que se concentra, na parte de pesquisa, apenas em doenças infecciosas. Geralmente, a maioria dos hospitais não pesquisa só esse tipo de mazela. E faz isso desde 1974 quando foi fundado. Atualmente, a unidade é referência no país no tratamento de doenças infecciosas.

Tuberculose

A tuberculose é considerada pelo pesquisador da FMT, Marcus Lacerda, como um gravíssimo problema de saúde no Amazonas, inclusive na população indígena que é muito acometida pela doença. Atualmente, Manaus e Rio de Janeiro “disputam” quem tem mais casos de tuberculose. “É uma doença complicadíssima, difícil de fazer o diagnóstico, que mata muitas pessoas e o tratamento dura seis meses”, relata.

Conforme ele, a FMT tem vários trabalhos que tentam descobrir a forma de melhorar o diagnóstico. “A maior parte dos nossos trabalhos para tuberculose não são para tratamento, são para diagnóstico”, conta. Lacerda revela que há um grande estudo, patrocinado pela organização americana NIH, sendo desenvolvido na fundação, “O NIH está nos pagando para acompanhar pacientes com tuberculose e avaliar a eficácia de tratamento e melhores formas de diagnóstico”.

HIV/Aids

Atualmente, quase os todos os doentes internados na FMT tem HIV/Aids, de acordo com o pesquisador da instituição, Marcus Lacerda. E, por isso, a fundação começou, recentemente, a fazer pesquisa nesses pacientes visando mudar essa situação. “Nós fomos a primeira instituição a usar a medicação 3 em 1 (comprimido que contem três tipos de drogas diferentes). Antes, o paciente tinha que tomar comprimido o dia inteiro, agora só toma um”, disse.

Além disso, está em execução um estudo com o Prep (Profilaxia Pré-Disposição), medicamento (truvada) que age como se fosse uma vacina protegendo aquelas pessoas mais vulneráveis contra a Aids. “Essa pesquisa está sendo realizada no Amazonas, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, inclusive nós estamos recrutando voluntários. serão 60 pessoas que vamos acompanhar durante um ano. Dependendo desse estudo, o Ministério da Saúde vai comprar a truvada para ser usada pela população e será mais uma vantagem para se evitar o contágio pelo HIV”.

Dengue

A FMT também desenvolve diversas pesquisas em relação a dengue, mas, nesse momento, todos os esforços da instituição estão concentrados na vacina que está sendo desenvolvida pelo Butantan, de São Paulo. “É uma dose única que esperamos que tenha uma proteção de 90% contra os quatro tipos do vírus da dengue (1,2,3 e 4)”, aponta o pesquisador Marcus Lacerda.

A pesquisa está na última fase de desenvolvimento, que é a testagem em humanos. Os voluntários, que começaram a ser vacinados este ano, serão acompanhados durante cinco anos para saber se ela é segura e se tem eficácia. “Ela também esta sendo feita de forma multicêntrica, em vários centros no Brasil e nós somos um deles. Com esta etapa queremos saber se a vacina protegeu durante 5 anos de exposição a dengue”.

Hepatites Virais

No campo das Hepatites Virais a FMT também desenvolve estudos, principalmente porque a doença ainda é um problema muito grave no Estado, onde há a presença dos vírus A, B, C e D. Este último, inclusive, só tem na Amazônia, não tem em outro lugar do país. “O que temos de inovador são as pesquisas com o equipamento Fibroscan (Elastografia Hepática)”, revelou O pesquisador Marcus Lacerda.

Conforme ele, para saber como a doença seria tratada era preciso fazer uma biópsia, ou seja, furar a pessoa, tirar um pedacinho do fígado para examinar. Hoje, com esse equipamento, não é mais preciso isso. “É como se fosse um ultrasson, coloca por fora e faz o exame. Com o resultado dele você sabe como é que está a agressão no fígado e como vai tratá-la. Em breve, está chegando mais dois equipamentos do ministério da Saúde. Um deve ficar aqui em Manaus e o outro vai para o interior”, comenta.

Zika vírus

Ainda este ano, a FMT deve iniciar as pesquisas sobre o Zika vírus. O estudo será financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e será feito no Amazonas, Rio de Janeiro e Pernambuco. O objetivo é descobrir a presença do vírus em fluídos corporais, como no sêmen, secreção vaginal, lagrima, suor, saliva, sangue e urina e a sua capacidade de transmissão, conforme disse o pesquisador Marcus Lacerda.

Ele destaca que a maior parte da doença é transmitida pelo Aedes aegypti, mas existem outras formas de contaminação como sexual. A preocupação é saber até quanto tempo o vírus fica no sêmen de um homem que teve Zika. “É uma pesquisa importante porque não sabemos quem pode pegar a doença ou não. Vamos fazê-la ao longo de dois anos com 400 pessoas em cada Estado. É um estudo inédito que devemos começar ainda este ano”, afirma.

Fonte: A crítica