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28/06 - Verdades, mitos e dúvidas sobre a vacina contra o HPV


Por  Sincofarma MG  Postado 28/6/2016

Mais de 5 mil mulheres morrem todos os anos de câncer de colo de útero, no Brasil. É o terceiro tipo mais comum da doença no sexo feminino e também uma das maiores causas de morte por câncer entre elas – perde só para os de mama e os de cólon e reto. Para 2016, o Instituto Nacional do Câncer prevê 16.340 novos casos. Em 100% deles a doença estará relacionada à infecção pelo HPV.

Hoje, especialistas são unânimes em dizer que a infecção pelo papilomavírus humano – nome e sobrenome do HPV – é pré-requisito para esse tipo de câncer. Não é à toa que o Ministério da Saúde incluiu a vacina contra o vírus no calendário gratuito, em 2014, para meninas de 11 a 13 anos, e de 9 a 13, desde o ano passado.

Nas clínicas particulares, a mesma vacina sai a R$ 400, cada uma das três doses. No entanto, em um país com adesão tida como exemplar às campanhas de vacinação, até março deste ano apenas 43,73% das meninas tinham tomado a segunda dose. O número está longe de ser considerado ideal.

A vacina já existe há dez anos e começa agora a mostrar em números sua eficácia nos países nos quais foi adotada precocemente. A Austrália, onde a vacina é de graça desde 2007, é a base de comparação para a medicina atualmente, em assuntos de vacinação contra o HPV. Lá, os índices de infecção pelos tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus –  sendo os dois primeiros os maiores responsáveis pelas verrugas genitais e os últimos, pelos cânceres – diminuíram 86% nas mulheres com entre 18 e 24 anos. As verrugas genitais caíram 92,6% em mulheres com menos de 21 anos. A incidência de câncer de colo de útero lá é de 9 casos a cada 100 mil mulheres. Aqui, chega a 16. Dessas, 5 morrem da doença.

antos números não parecem ser o bastante para convencer a população. Um pouco por causa de conservadorismo – como o HPV é sexualmente transmissível, alguns pais encaram a vacinação como um “incentivo” ao início da vida sexual -, um pouco por causa de boatos.

No ano em que a vacina foi adotada pelo Ministério, notícias de adolescentes com supostas reações adversas graves se espalharam pelo noticiário. Pronto: de 100% de adesão na primeira dose, o número chegou a apenas 60% para a segunda dose naquele ano. O esforço agora, mais do que cobrir a população-alvo com as vacinas, é educar sobre o tema. A Sociedade Brasileira de Imunizações junto com outras sociedades médicas e apoio acaba d elançar a segunda etapa da campanha Onda Contra Câncer, na tentativa de reforçar a importância da vacinação precoce. 

As dúvidas e caretas quando o assunto aparece são muitas. As informações, às vezes truncadas. Contra boatos, mitos e buscas sem rumo pelo Google, Metrópoles preparou um guia com tudo o que você precisa saber sobre o assunto. Spoiler: homens, a vacina é para vocês também.

Em 2014 o Ministério da Saúde passou a oferecer a vacina quadrivalente contra o HPV gratuitamente na rede pública de saúde para meninas de 11 a 13 anos – a faixa etária caiu para 9 a 13 em 2015. De início, a decisão do governo foi um sucesso. No primeiro ano, a cobertura da vacina chegou a 92%, bem mais que os 80% estipulados como meta.  Depois, a coisa mudou.

Até março deste ano, por exemplo, pouco mais de 60% das meninas tinham tomado a primeira dose. A adesão à segunda então, que garante a proteção, não chegava nem a 50%. Este mês, durante um evento da Sociedade Brasileira de Imunizações em São Paulo para tratar do assunto, Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério de Saúde, atribuiu a queda, principalmente, à fuga das escolas na campanha de vacinação.

A inclusão da vacinação na escola é uma estratégia adotada no mundo todo para garantir maior adesão à vacina, já que o deslocamento até um posto ou unidade de saúde pode dificultar o acesso.

No entanto, desde o ano passado, as escolas tiraram o corpo de campo. “Elas não querem se responsabilizar. Principalmente as particulares, que têm medo de processos”, avaliou a especialista. Além disso, alguns pais ainda têm receio quanto à validade da vacina e medo dos efeitos colaterais. Some as duas coisas e o resultado é a adesão murcha que os números mostram.

Por que tão cedo?
A inclusão de novas vacinas no calendário público no Brasil depende de uma série de estudos econômicos e de viabilidade. O famoso “custo-benefício” é o que manda: prevenir a doença sai mais barato do que tratá-la depois. Todo centavo conta. Por isso homens e meninas com mais de 13 anos não são vacinados de graça até agora. Um dos maiores “pés atrás” dos pais é justamente esse: por que vacinar meninas tão cedo contra uma DST, se a vida sexual ainda parece tão longe?

A resposta mais curta é: porque a vacina funciona melhor assim. Quanto mais cedo ocorre a vacinação, maior é a resposta do sistema imunológico a ela. Ou seja, o corpo produz muito mais anticorpos aos 9 do que aos 18 anos. Com isso em mente e baseado em uma série de estudos, a conclusão do Ministério foi de que a resposta do organismo a apenas duas doses da vacina (com intervalo de seis meses entre elas) em meninas com entre 9 e 13 anos é a mesma do esquema de vacinação com três doses em meninas com idade entre 16 e 26, recomendado pelas sociedades médicas.

 

Noves fora, o esquema economiza ao Ministério uma dose por menina vacinada. Hoje, cada dose sai a US$ 12,65 (R$ 43) aos cofres públicos. Como a expectativa do Ministério para 2016 é vacinar 1,7 milhão de meninas, o esquema reduzido representaria uma economia de R$ 73,1 milhão.

Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, a resistência existe também por uma fator da idade: a cultura vacinal no Brasil é de se vacinar bebês e crianças. Não adolescentes. “Temos uma cultura de que vacina é para criança. Vacina para adolescente é mais difícil mesmo. Comparado com o resto do mundo, os dados são até normais. Mas em relação ao nosso histórico, é baixo”, pondera.

A mesma vacina disponível para meninas de até 13 anos na rede pública existe nas clínicas particulares mediante um não tão módico pagamento de R$ 400, em média, por dose, para mulheres de até 45 anos e meninos e homens com até 26 anos.

Diferentemente do que ocorre nos postos de saúde, no entanto, o protocolo nas clínicas privadas é o tradicional, recomendado pelas sociedades médicas: três doses, com intervalo de um a dois meses entre as primeiras doses, e de seis meses para a última. Essa é a vacina quadrivalente. A bivalente, que protege apenas contra os tipos oncogênicos do HPV (16 e 18) sai, em média, a R$ 350, mas não imuniza contra os tipos causadores das verrugas genitais.

Mas, afinal, depois de iniciada a vida sexual, ainda vale a pena se vacinar contra o HPV? Há quem desista de gastar o dinheiro com a vacina por acreditar que ela já não é mais eficaz depois da adolescência. Mentira. Se você tem até 45 anos e quer se vacinar contra o vírus, segundo os especialistas, não só pode procurar uma clínica, como deve.

A diferença está na resposta imunológica, a mesma que o Ministério da Saúde usa para justificar a vacinação precoce, a partir dos 9 anos. Enquanto nas meninas com até 13 anos a eficácia da vacina chega a 98%, estudos mostram que, nas mulheres com entre 24 e 45 anos, ela fica na faixa dos 90%. Menor, mas ainda suficiente para justificar a vacinação.

A Sociedade Brasileira de Imunização recomenda a vacinação das mulheres até 45 anos. Até porque a maioria delas não está infectada por nenhum tipo de HPV. Segundo a médica Mônica Levi, da Sociedade, 70% das mulheres com entre 16 e 45 anos são negativas para infecção por HPV em exames preventivos. Ou seja, fortes candidatas a se beneficiarem da prevenção.

 

Além disso, com o maior número de divórcios, as contaminações depois dos 35 anos tendem a aumentar. O gráfico de contaminação por faixa etária se parece com um “V”: há um pico na faixa dos 20 anos, uma queda lá pelos 30, e volta a aumentar na quarta e quinta década de vida, provavelmente quando a mulher conhece novos parceiros, depois de um divórcio, por exemplo. Além disso, ainda de acordo com Mônica, estudos de eficácia da vacina mostram uma queda de até 90% de verrugas genitais em mulheres de 24 a 45 anos que foram vacinadas.

“Depois que você já foi contaminada, não adianta mais se vacinar”. A frase é repetida em rodas de conversa femininas e por alguns médicos ginecologistas. Mas não é bem assim. Embora a vacina não seja terapêutica – ou seja, não vai interferir nem positivamente, nem negativamente no tratamento de uma doença ativa por HPV, se a paciente tiver uma -, pode ajudar a prevenir futuras infecções por outros tipos do vírus ou pelo mesmo, caso ela venha a topar com ele de novo no futuro.

Ao contrário de doenças como a catapora, por exemplo, a mulher não fica imunizada contra o HPV depois de tratar uma infecção pelo vírus. Por isso, ainda pode se beneficiar da vacina depois do tratamento. Para quem gosta de dados: a vacina mostrou queda de 65% de doença recorrente por HPV em mulheres que se trataram contra o vírus e se vacinaram depois. O parecer dos especialistas: se você é mulher e tem menos de 45 anos, procure uma clínica.

A vacina é licenciada até os 45 anos. É claro que o benefício vai se reduzindo, porque a resposta imunológica é menor conforme a idade aumenta e porque o risco de ela já ter sido exposta ao HPV é maior. Mas isso não é contraindicação para a vacina, e essa é uma confusão muito grande. Há sempre um benefício. 

Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações
 
Se a vacinação de mulheres adultas sempre foi meio escanteada, imagina a dos homens. “No início, os homens eram os vilões, aqueles que transmitiam o vírus para as mulheres. Hoje a vacinação neles não é apenas para prevenir as mulheres. Sabemos que eles são vítimas também do HPV”, defende Mônica Levi, presidente da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais da SBIm.
 
Além das verrugas genitais, que atingem os homens em proporção praticamente igual a que atingem mulheres, o HPV está relacionado, neles, ao câncer de cabeça e pescoço – o HPV é um dos maiores causadores de câncer de boca e faringe. Para 2016, o Inca prevê 15.490 novos casos de câncer de boca – 11.140 deles em homens. Serão mais de 5 mil mortes este ano em decorrência da doença.

 

Nas clínicas particulares, a vacina está disponível para homens com até 26 anos. A rede pública ainda não vacina os meninos, mas a expectativa é de que eles sejam incluídos no programa logo. “A melhor estratégia é a da vacinação combinada de meninas e meninos. E não deve demorar para o Ministério incluí-los também no programa nacional”, afirma Renato Kfouri.

Em 2014, primeiro ano da vacina pela rede pública no Brasil, o país todo ficou chocado com uma série de notícias sobre 11 meninas que acabaram hospitalizada em Bertioga (SP), por supostas reações adversas à vacina contra o HPV. O susto foi o tipo da reação: três delas diziam que não sentiam as pernas e que tinham dificuldade de andar.

“Os sintomas vão e voltam. O único remédio que elas tomam é para evitar não dar mais problemas. A médica foi bem clara com a gente. Elas correm risco de ficarem paraplégicas”, relatou uma mãe ao portal G1, à época do ocorrido.

Os efeitos duraram pouco tempo. As meninas foram liberadas e, dias depois, seus exames neurológicos vieram normais. A Secretaria de Saúde de São Paulo avisou que os sintomas nada tinham a ver com a vacina. Mas o medo já estava instalado na população.

Os sintomas foram reportados e devidamente investigados. Nada que os classificasse como reação adversa à vacina ficou comprovado. Para os especialistas, a conclusão foi de que o evento foi de fundo psicológico, com o medo como gatilho. Reações parecidas foram achadas também na aplicação de outros tipos de vacina.

Em adolescentes, pesa muito a questão emocional. Serviu de lição para a gente saber como lidar com isso. Eles já entram na sala com medo, não é raro a gente ver desmaios ali, por exemplo. Por isso até que se aplica a vacina com a pessoa deitada. 

Mônica Levi, presidente da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações

Segundo Mônica, outras suspeitas como a de que a vacina poderia causar esclerose múltipla ou trombose também foram “amplamente analisadas” e completamente descartadas.

Fonte: Metrópoles