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Vacina contra varicela é segura e eficaz em pacientes pediátricos com doença reumática e imunossupressão leve


Por  Sincofarma MG  Postado 09/06/2017

 

Pacientes pediátricos com doenças reumáticas e em uso de medicamentos que promovem imunossupressão leve apresentam resposta humoral e celular à vacina contra varicela semelhante à de indivíduos saudáveis. Este achado, publicado em maio no períodico Vaccine, mostra que há uma janela de oportunidade para ministrar essa vacina de vírus vivo atenuado em indivíduos com doença autoimune quando o nível de imunossupressão é leve.

A Dra. Gecilmara Salviato Pileggi, reumatologista pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP) e uma das autoras da pesquisa explica que o esquema com duas doses é o que apresenta melhor resposta nessa população.

Quando se fala em indivíduos com doenças crônicas, o ideal é atualizar o calendário vacinal antes de iniciar a terapia de imunossupressão, visto que essa prática garante resposta e segurança. No entanto, na prática clínica, frequentemente pacientes não vacinados chegam ao consultório já em uso de imunossupressores.

"Buscamos saber com que tipo de medicação ainda garantimos resposta à vacina com segurança; isso porque são vários os níveis de imunossupressão proporcionados por essas medicações. Começamos o estudo vacinando pacientes com nível de imunossupressão mais leve", disse ao Medscape a Dra. Gecilmara, que também é membro da Comissão de Doenças endêmicas e infecciosas Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) e colaboradora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Ao todo, a Dra. Gecilmara e colaboradores do University Medical Center Utrech (Holanda) avaliaram 49 pacientes, sendo 39 com artrite idiopática juvenil, cinco portadores de dermatomiosite juvenil e cinco acometidos por esclerodermia juvenil. Todos os pacientes usavam metotrexato, terapia que promove imunossupressão leve. Mas alguns participantes faziam uso também de outras medicações: 16 usavam corticosteroides e três usavam agentes biológicos. O estudo incluiu ainda 18 controles: indivíduos saudáveis com idade até 18 anos tal como os pacientes estudados.

Ao analisar amostras coletadas imediatamente antes da administração da vacina contra varicela com vírus vivo atenuado, entre quatro a seis semanas e um ano depois, os autores identificaram que a resposta de anticorpos à imunização foi similar entre os pacientes e os controles e o uso de agentes imunossupressivos não afetou a resposta. Além disso, a segunda dose da vacina aumentou as concentrações de anticorpos específicos. As células-T específicas contra o vírus varicela-zoster (VVZ) também aumentaram.

O comprometimento do sistema imune causado por doença autoimune e por medicações imunossupressoras aumenta o risco da infecção por VVZ evoluir para um quadro grave, que pode levar a complicações pulmonares, neurológicas e mesmo ao óbito. Outro problema, diz a Dra. Gecilmara, é que um indivíduo que adquire varicela, também chamada de catapora, pode, no futuro, apresentar vários episódios de herpes zoster, quadro que causa dor neuropática e que, algumas vezes, pode resultar em sequelas irreversíveis.

Dessa forma, a vacinação contra a varicela torna-se uma ferramenta importante para essa população. No entanto, a imunossupressão aumenta o risco de os pacientes não responderem bem à vacina, havendo maior chance dela não ser efetiva. As imunizações que contam com vírus atenuados trazem uma preocupação extra, pois podem não ser seguras nesta população.

 

Pacientes com imunossupressão maior devem suspender a medicação para fazer a vacina

 

Quanto à eficácia, foram encontrados resultados positivos na amostra descrita no artigo da Vaccine, porém os participantes em uso de agentes biológicos tiveram resposta menor à vacina e isso se manteve mesmo depois da segunda dose. Para a Dra. Gecilmara, esse achado indica que, em sujeitos que apresentam um nível maior de imunossupressão, o ideal seria suspender essa medicação para fazer a vacina contra VVZ.

Os pacientes com dermatomiosite juvenil também apresentaram resposta reduzida após a primeira dose da vacina, porém responderam adequadamente com a segunda administração.

"Diante desse resultado, acredito que para errarmos menos – e isso vale para outras doenças que tenham imunossupressão –  o melhor é que sejam feitas duas doses para termos mais certeza de conseguir proteção adequada. Esse procedimento é indicado para os pacientes com imunossupressão leve. Para os que têm imunossupressão maior, o ideal seria interromper as medicações, esperar uma janela e fazer a vacina", diz a pesquisadora.

Atualmente, no sistema público de saúde está disponível uma única dose da vacina, na apresentação SCR-V (contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela), que deve ser aplicada em crianças imunocompetentes com 15 meses, que já tenham tomado a primeira dose de tríplice viral. Mas, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a SBIm recomendam duas doses, sendo a primeira aos 12 meses e a seguinte entre 15 e 24 meses de idade. Em pacientes mais velhos, que ainda não foram imunizados, recomenda-se também duas doses com intervalo de um a dois meses.

 

Vacinação melhorou quadro reumático

 

Quanto à segurança, três pacientes do grupo com doença reumática e um do grupo controle apresentaram febre e erupção vesicular leve após a vacinação. Como eles tiveram entre 10 e 20 lesões, ou seja, menos de 50, não é possível afirmar que desenvolveram catapora. Os quadros foram autolimitados e não necessitaram da administração de antiviral.

A médica explica que os resultados estão dentro do esperado, pois, na população geral, há também um percentual de indivíduos que desenvolve reações como essas, visto que a taxa de eventos adversos pode variar de 5 a 35%.

"É interessante, porque no nosso estudo os pacientes que tiveram essa reação apresentaram uma resposta ótima, ficaram bem protegidos. O sistema imune deles respondeu bem, controlou a infecção", conta, lembrando que outros estudos com vacinas de vírus vivo atenuado em pacientes imunocomprometidos também encontraram taxas de ativação similares entre os pacientes e os controles.

Outra preocupação que os pesquisadores tinham era com a possibilidade de a vacina alterar o sistema imune dos pacientes, agravando a doença reumática ou causando uma ativação dela, o que não aconteceu. No grupo com artrite idiopática juvenil em 16 pacientes a doença permaneceu estável, em 20 houve redução dos sintomas e em três ocorreu um ligeiro aumento (medido pelo Juvenile Arthritis Disease Activity Score – JADAS). Nos outros dois tipos de doença analisados os quadros também permaneceram estáveis ou diminuíram após a vacinação (aferidos por Physician's Global Assessment, PGA e Parents' Visual Analog Scale, VAS).

Atualmente, a equipe da Dra. Gecilmara está em busca de novas parcerias com outros centros de saúde, visando dar continuidade à investigação. A ideia é seguir estudando crianças com doenças reumáticas em uso de medicamentos imunossupressores, mas trabalhar com pacientes submetidos a diferentes graus de imunossupressão. Além disso, o grupo pretende continuar acompanhando a amostra da pesquisa inicial por mais tempo, a fim de avaliar o estado desses sujeitos em longo prazo (cinco e 10 anos).

"Esse seguimento permitirá identificar se há ou não necessidade de propor uma dose de reforço da vacina mais tardiamente", diz.

Há ainda a expectativa de iniciar investigações com adultos, e com a vacina contra o herpes zoster, que apresenta a mesma formulação da vacina contra a varicela, mas com maior potência.

"Essa imunização seria para o paciente adulto que já teve catapora na infância e que, na vida adulta, desenvolveu doença reumática e faz então uso de medicação imunossupressora. Pretendemos estudar quais seriam as janelas de oportunidade para fazer essa vacinação nos pacientes adultos", esclarece.

A pesquisa em questão foi financiada pela European Agency for Health and Consumers (EAHC). Os autores declaram no artigo que não receberam apoio de outras fontes comerciais.

 

Fonte: Medscape